Homem / poeta
Nélio BessanT
Há quem, neste mundo insista,
sem prever o resultado,
por um poeta, um artista,
se dizer apaixonado.
Ledo engano, dura prova,
há de enfrentar quem assim
proceder, pois, se comprova,
quão mal há de ser seu fim.
É preciso que se faça
a completa distinção
entre o homem – este passa –
e o poeta – este não !
O homem, podes prender,
enjaular, e até amá-lo...
Faças, se queres fazer
nem precisarás soltá-lo.
É assim como um gatinho,
ronronando pelo chão,
dê-lhe um pouco de carinho,
cama e comida então...
Eis aí uma receita
para mantê-lo cativo.
Talvez não seja perfeita,
mas basta prá tê-lo vivo.
No outro caso, entretanto,
o do poeta, citado,
existe lá, certo encanto
estranho e não desvendado.
Poeta, essa criatura,
misteriosa, fingida,
decerto não se mistura
com o homem por toda a vida.
Este quase etéreo ser
não tem dono, nem patrão,
não se sujeita a viver
rastejando rente ao chão.
Pertence ao mundo por tudo
que a esse mesmo mundo dá,
sendo do mundo, contudo,
deixa esse mundo prá lá.
Vive em função da poesia,
não tem amores prá si.
Dia e noite, noite e dia
rimas daqui e dali.
Então, voltando ao começo,
atente à afirmação:
se todo homem tem preço,
um poeta, não tem, não !
O homem deves amar
com todo ardor e paixão;
só os dois podem completar
do Criador, a missão.
Pois, deixe o poeta à parte,
a ele, interessa, apenas,
que gostem de sua arte
enquanto encanta as camenas.
Faze dele um seu amigo,
convivam seus universos,
e ele será contigo
fiel amante ... em seus versos.